O Brincar na criança com TEA

“Mas ele está brincando… Ele ADORA os carrinhos”
Não raro, chegam a clinica crianças  pequenas que, segundo os pais,  “brincam”. A escola relata que P. ADORA brincar de girar o balanço na escola. A família relata que P. ADORA os carrinhos ou os bonecos do toy story.  No consultório do pediatra, P. pega um brinquedo no chão, não larga mais e,  aparentemente, ele “ADOROU” aquele brinquedo, pois está “super concentrado” na “brincadeira”. E  quando tem se o diagnostico de Autismo fechado, é comum, diante do quadro acima, a fala: “Ele brincava, mas parou”.

O Brincar e a Análise do Comportamento.
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Para Analise do Comportamento, Brincar é um comportamento. Como tal, deve ser aprendido e envolve a aprendizagem de um repertório mínimo (DE ROSE e GIL, 2003). O comportamento de brincar vai sendo também aperfeiçoado à medida que a criança, inicialmente, segue modelos e gradualmente vai modelando esse repertório. Podemos afirmar, então, que o comportamento de seguir modelo (imitar) é um requisito geral para o brincar  e que, é preciso desenvolver as habilidades necessárias ao comportamento de brincar.
Para Análise do Comportamento, o comportamento de brincar atua  enquanto comportamento operante (ocorre em um determinado contexto, chamado estímulo discriminativo, e gera um estímulo que afeta a probabilidade dele ocorrer novamente). Quando tratamos do comportamento operante (organismo que modifica o ambiente), as contingências se referem às condições sob as quais uma conseqüência é produzida por uma resposta, ou seja, a ocorrência de uma conseqüência depende da ocorrência da resposta. Por outro lado, ao dizermos que possui propriedades naturalmente reforçadoras remetemos ao efeito de prazer de uma consequência reforçadora produzida pelo próprio comportamento.
Ou seja, o brincar possui “em si” um efeito de prazer naturalmente reforçador, o que leva a cunharmos o termo “espontaneidade” ao descrevermos sua topografia e contingências  (efeito de uma resposta sobre a probabilidade de um estímulo).
“Afirmar que o comportamento de brincar é operante significa primordialmente dizer que, parafraseando Skinner, ele é sensível às consequências que produz e selecionado por elas. Nesse ponto, destacamos a importância de analisarmos o comportamento de brincar como qualquer outro comportamento operante, sujeito às mesmas leis e princípios gerais. Por outro lado, ao dizermos que possui propriedades naturalmente reforçadoras remetemos ao efeito de prazer de uma consequência reforçadora produzida pelo próprio comportamento. Ou seja, o brincar possui “em si” um efeito de prazer naturalmente reforçador, o que leva a cunharmos o termo “espontaneidade” ao descrevermos sua topografia”. Natalie Brito

E o BRINCAR  para criança com autismo? A importância da Análise funcional.NA-BK933_AUTISM_G_20110403165626
Bom, até o momento vimos um monte de teoria sobre o Brincar. E no dia a dia, como isso se traduz? Ainda temos o mito de que “criança autista não brinca”, “criança autista não se interessa por brinquedos” ou o pior de todos “criança autista não gosta de brincar com outras crianças”.
Nada disso é verdade. Crianças autistas (ou não), podem brincar. Partindo da noção de que Brincar é um comportamento, então ele pode ser aprendido!
Esse é o grande X da questão: Como essa criança irá aprender a brincar…
Nas crianças típicas, quando o desenvolvimento ocorre sem grandes intercorrências, o brincar vai “acontecendo”…. Mesmo  crianças com graves vulnerabilidades (sociais e econômicas) brincam com o que lhes tem ao seu alcance, inicialmente através da exploração sensorial, depois imitando, depois simbolizando.  É como se esperássemos que esse processo ocorrerá mesmo que não façamos nada…
O maior problema neste pensamento é que ele é aplicado ao autismo: Vemos muitas crianças com TEA manipulando brinquedos e objetos de forma aleatória ou auto estimuladora e supõe-se que ela esta brincando.
A priori, brincar é considerado aqui como  a brincadeira simbólica, ou de faz de conta, apesar de que atividades sensoriais, motoras e jogos com regras,  ou de estratégias muitas vezes são também chamadas de brincadeiras.
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 Assim, a criança pega o carrinho, fica “andando para frente e para trás” e, a primeira vista parece que ele realmente esta brincando.  A menina coloca a coroa na cabeça e supomos que ela esta fingindo ser princesa. E nisso pais e professoras acabam dando mais e mais brinquedos que “a criança adora”.  E  o tempo vai passando e a criança tem 7,8,9 anos e continua fazendo exatamente a mesma coisa e “brincando” com os mesmos “brinquedos”…
Afirmar que, por manipular brinquedos ela esta brincando, é tao raso quanto afirmar que criança autista não brinca!
E aqui faco um pequeno parênteses: criancas autistas de alto funcionamento tem a tendência a “memorizar” determinadas brincadeiras. Isso não é necessariamente um problema, mas, quando se afirma que ela simboliza por ter memorizado, ai sim é um grande problema… Tomem por base a criança tipica: um menino de cinco anos pega um galho na rua e finge que é uma espada, criando uma luta e um contexto imaginário. Isso é simbolizar… A criança aprender a brincar com uma pista da hot wheels fazendo o carrinho descer sempre da mesma maneira repetindo a entonação utilizada pelo terapeuta  não é simbolismo…
É neste ponto que entram os princípios e a importância da analise funcional do comportamento (DO BRINCAR,  no caso).
Sendo o BRINCAR um COMPORTAMENTO, é preciso analisar o contexto:

Evento Antecedente —–   RESPOSTA —– Evento Consequente.

Na verdade, o que pais e professores chama de “brincar”, é somente a RESPOSTA.  Sem analisar o antecedente  e o consequente, ficamos preso a um recorte de um quadro geral que não analisa a topografia destas respostas.
Por exemplo: Menino de 4 anos, TEA, pouca verbalização, que “faz coleção de hot weels” e “adora brincar com eles na sala, ficando horas entretido concentrado”.  Observar o menino “sentado, concentrado, brincando” é somente o “recorte”.  As primeiras perguntas que se faz é: Existe intencionalidade? Existe funcionalidade? Qual é o evento consequente que faz ele “ficar tão concentrado”? Qual o antecedente daquela “brincadeira”?
Tem tanta coisa que precisa ser vista antes que se diga que “a criança esta brincando”…  E quanto mais complexo é o comportamento, maior é nossa tendência a olhar somente para o “recorte”, olhando somente para respostas e inferindo ( interpretando aleatoriamente) sobre elas…E, quanto mais “quietinha” é a criança, menos se intervém, seja na casa, seja na escola!
Crianças com autismo podem brincar. Mas elas precisam aprender como brincar. E alguém precisa ensinar…  Eu  acredito que esse ensino deva ocorrer em três frentes:
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#Terapia: É função do terapeuta fazer esta leitura completa do comportamento do Brincar
(Sd-R-Sc) da criança, identificando a função e a forma deste “brincar”, bem como as contingências destes.  Alem disso, é sua função também identificar se há fluência de habilidades básicas necessárias e, a partir dai elaborar objetivos que dêem conta destas demandas, orientando as pessoas próximas a criança.
# Casa (família): A máxima entre crianças, “quanto mais melhor”, não se aplica de forma alguma.  Os pais geralmente compram o que esta em voga na televisão ou que vêem os amigos da escola falando.  Tudo bem comprar uma Monster High, mas ela segurar a boneca e olhar a perna que brilha  é uma “brincadeira” sensorial ou auto estimulatória e não uma “brincadeira” simbólica onde ela finge que é a personagem e cria um contexto inteiro para isso… Senta com ela e vai criando o contexto todo: Castelo, a amiga, a Escola, põe o desenho na TV e tenta reproduzir junto com ela algumas partes com massinha, folha, canetinha, outros brinquedos. Expanda sempre o repertório, não se prenda ao que ela supostamente gosta. Apresente outras opções, dirija a brincadeira!
# Escola: Ter os cantinhos na sala é tudo de bom. Mas, supor que a criança com autismo esta simbolizando porque ela “pegou a xícara e colocou na boca” não é faz de conta. Ela esta reproduzindo um contexto que foi apreendido, dando função (real), aos objetos (também reais). A gente supõe que “ela esta brincando de tomar chá”, mas provavelmente é somente uma resposta a um estimulo já condicionado (beber na xícara). Hora de Brinquedo Livre para crianças com Autismo são péssimas. Ela provavelmente ira ficar utilizando o corpo (correndo, girando, tocando) para se auto estimular ou ira manusear determinados brinquedos sem realmente estar brincando. Ajude a criança primeiro nomeando, mostrando a função de cada coisa DEpois brinque de imitar: Por mais que irrite as profes quando começa em sala o  “profeeeeeeeeeee, a fulana esta me imitando”, imitação em autismo é um grande passo. Estimule, peça para crianças ajudarem, sem tornar chato ou obrigação,  Brincadeiras de Siga o Mestre, Vampiro Vampirão, estátua, são ótimas e TODAS as crianças aprovam!
Ahh, e um lembre a TODOS: Crianças autistas não devem ser estimuladas a ficarem sozinhas: É comum ouvir “deixe ele, porque ele gosta de ficar sozinho”. Nem ao céu, nem a terra: Não precisa ficar o tempo todo forçando, mas deixar isolado o tempo todo é cruel.
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Portanto, lembrem-se que:
#Brincar é um comportamento: um conjunto de respostas dentro de um relação que é maior, produzindo consequências especificas, sendo emitidas sob controle de estímulos antecedentes específicos…
#Autistas Podem Brincar. Mas precisam ser ensinadas.
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